
O que é a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica?
A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma doença heterogénea, mas comum, prevenível e tratável, caracterizada por sintomas respiratórios crónicos e persistentes (dispneia, tosse, produção de secreções e exacerbações) com limitação ao fluxo de ar, resultante de alterações das vias aéreas (bronquite e bronquiolites) e/ou alveolares (enfisema) de forma persistente e progressiva com obstrução. A DPOC é causada pela exposição significativa a partículas/gases nocivos como o fumo do tabaco, ambiente laboral e influenciada pelas características individuais do doente, incluindo o desenvolvimento pulmonar anormal e também com muitas comorbilidades associadas.
Quais as diferenças entre Bronquite crónica e enfisema?
A inflamação crónica das principais vias aéreas dos pulmões provocam o seu estreitamento, dificultando a respiração e originando sintomas como a tosse, a produção de secreções (expetoração) e a dispneia (falta de ar). Estes sintomas ocorrem durante a maioria dos dias do mês, ao longo de pelo menos três meses e em dois anos consecutivos e desta forma falamos em bronquite crónica.
O enfisema pulmonar corresponde à destruição gradual dos alvéolos pulmonares, local onde ocorrem as trocas gasosas durante a respiração, reduzindo a área de superfície disponível para essas trocas e, portanto, a quantidade de oxigénio que é transportado para o sangue, o que dificulta a respiração.
Quais são as causas/fatores de risco?
A DPOC resulta de características intrínsecas do doente, como a genética, toda a sua interação ao longo da vida com o ambiente que frequenta e a própria condição económica podem ser fatores para o desenvolvimento da doença.
A exposição ao fumo do tabaco e a outros fumos ou partículas ambientais, como a combustão proveniente da biomassa (exemplo dos fogões a lenha e lareiras), a poluição, o ambiente laboral; até o baixo peso ao nascer, a prematuridade do recém-nascido que por exemplo foi provocado pela mãe fumadora, são fatores que afetam o crescimento e desenvolvimento dos pulmões. A própria asma, a hiper-reatividade brônquica, a bronquite crónica e as infeções respiratórias, também são determinantes para o desenvolvimento futuro de DPOC em alguns doentes.
Assim, todo o desenvolvimento pulmonar associado aos danos provocados e ao envelhecimento são responsáveis pela doença.
Como se diagnostica?
O diagnóstico da DPOC e sua gravidade dependem de parâmetros medidos de fluxos respiratórios; dados espirométricos determinados por espirometria ou provas de função respiratória, não devendo utilizar critérios clínicos para o seu diagnóstico ou mesmo radiográficos apesar de fazerem parte do processo de avaliação destes doentes e importantes.
Em que idade surge?
O efeito da exposição ao risco, como o tabaco, é cumulativo e dessa forma a DPOC é progressiva em todo o tempo, manifesta-se com falta de ar e piora com o exercício, até se tornar persistente.
Assim, cada vez mais o adulto jovem na faixa etária dos 35 aos 40 anos e com fatores de risco ou com patologia respiratória crónica prévia durante o seu desenvolvimento é um forte candidato a um rastreio desta doença com a realização de uma espirometria; medir os seus volumes e débitos pulmonares através desta prova simples, o equivalente ao eletrocardiograma na avaliação do coração.
Quais os tratamentos?
O tratamento e o diagnóstico precoce da DPOC têm demonstrado um forte impacto no declínio progressivo da função respiratória e logo nos sintomas e qualidade de vida do doente.
A intervenção ao nível dos fatores de risco, como o abandono do hábito tabágico, um estilo de vida saudável com a prática de exercício físico e nutricional adequados são elementos que devem ser sempre considerados.
A necessidade do uso de fármacos, ajudam muito no controle dos sintomas já instalados e até nas exacerbações que motivam a ida ao serviço de urgência, muitas vezes com internamento e até morte. São usados medicamentos à base de broncodilatadores e corticóides inalados e o recurso em casos mais graves, a reabilitação respiratória, ventilação não invasiva e oxigénio.
Não devemos esquecer que todo o processo de vacinação: gripe, pneumonia, COVID19, herpes zoster ou zona e difteria/tétano são recomendações para estes doentes.
Também as comorbilidades, as doenças associadas, precisam de estar otimizadas no tratamento; exemplo da diabetes, hipertensão, dislipidemia, insuficiência cardíaca, etc.
As pessoas com DPOC estão mais suscetíveis a outras infeções? Quais?
Sim, daí a necessidade de proteção com a realização da vacinação e que em caso de infeção pode levar este doente a um serviço de urgência com internamento numa enfermaria ou nos cuidados intensivos com uma mortalidade acrescida na ordem dos 50%.
As infeções mais comuns são os vírus e que prevalecem no período do outono/inverno e bactérias em qualquer época do ano e que podem cursar com uma pneumonia e daí a gravidade em um doente já com patologia respiratória crónica de base.
Quais as mudanças na vida de um doente de DPOC com doença evoluída?
Toda a sua qualidade de vida e de relação social, familiar ficam afetadas; este doente fica limitado muitas vezes ao seu domicílio porque está dependente de oxigénio nas 24 horas, pois quando este é prescrito para substituir a função do pulmão deve ser feito no mínimo por um período de 15 horas dia.
Na doença grave, apresentam falta de ar para atividades mínimas da vida diária como o simples ato de vestir e da higiene pessoal, perderam a independência e aumentam em muito os seus níveis de ansiedade e depressão. Assim, os doentes nesta fase avançada da doença devem ser atempadamente informados do prognóstico da doença, bem como as suas famílias para decisões a tomar na fase terminal.
Quantas pessoas têm DPOC em Portugal? Números subiram/desceram?
Esta doença afeta cerca de 800 mil portugueses e representa já a terceira causa de morte a nível mundial.
A prevalência da DPOC varia de acordo com os métodos utilizados na sua determinação; uso de função respiratória isoladamente ou em combinação com os sintomas. Em Portugal faltam estudos neste domínio, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia realizou um inquérito dirigido à população portuguesa sobre este tema, revela que mais de 70% dos portugueses nunca ouviu falar de DPOC, daí uma campanha lançada com o ator Herman José “DPOQuê?”, para sensibilizar para esta patologia.
Atendendo à íntima relação entre DPOC e tabagismo, em 2019, 17% da população com 15 anos ou mais era fumadora, revelando uma tendência decrescente desde 2014 de 3% e neste grupo a percentagem de ex-fumadores era de 21,4% (ONDR).
Os dados disponíveis apontam para uma prevalência nos indivíduos com idade superior a 40 anos, em Portugal, de cerca de 14%, sendo que para a DPOC moderada, grave e muito grave a prevalência é de aproximadamente 7%. Isto quer dizer que 1 em cada 7 portugueses com mais de 40 anos sofre de DPOC e que 1 em cada 14 portugueses têm DPOC no mínimo moderada, podendo ser grave ou muito grave (SPP).
Qual a taxa de mortalidade?
Ocupando já a terceira causa de morte a nível mundial, a DPOC em 2018 em Portugal foi responsável por 2834 óbitos, correspondendo a 2,5% da mortalidade global, este número correspondeu a um aumento de 7,9% face a 2017 (ONDR).
A COVID-19 representou/representa um risco específico para pessoas com DPOC?
A expectativa de um crescimento dos diagnósticos de DPOC sofreu fortes condicionalismos na sequência da pandemia que viu as espirometrias reduzidas no seu número de exames com consequências negativas nos novos casos de diagnóstico.
A infeção por COVID19 representa para este doente um risco acrescido com exacerbações uma vez que possuem menores reservas respiratórias, a recomendação da otimização da sua terapêutica, o uso de máscara e o distanciamento social nesta infeção e em todas as potenciais infeções são recomendações para este grupo de doentes.
INE: Instituto Nacional de Estatística
ONDR: Observatório Nacional de Doenças Respiratórias
SPP: Sociedade Portuguesa de Pneumologia
Luís Rocha


